11 janeiro, 2012

A Liberdade em questão

"O que somos nós se temos a constante obrigação de nos fazer ser o que somos, se somos segundo o modo de ser do dever ser o que somos?"
Sartre

      
      Os homens não nascem alienados, fracos ou covardes; mas mesmo assim o conjunto de nossas ações, em diversos momentos, revela indivíduos alienados, fracos ou covardes. Na verdade, o homem se torna fraco, alienado ou covarde, afinal, a natureza humana não nos faz assim; mas o conjunto de nossos atos, pois somos o que fazemos de nós mesmos, ou seja, somos definidos pelo modo como atuamos no mundo.
      O homem  é o único ser capaz de inventar a si mesmo, ou seja, ele decide por meio de suas escolhas o que ele será. Em outras palavras, através da liberdade ele escolhe dar sentido à sua existência. Sartre assim não pretendeu orientar as ações humanas, muito pelo contrário, o que ele fez foi tentar retirar do homem as máscaras e deixá-lo diante de suas próprias possibilidades...

08 janeiro, 2012

Por você faria isso mil vezes

"— Eu sei — disse ele se desvencilhando do meu abraço. — Inshallah, vamos festejar mais tarde. Agora, vou apanhar aquela pipa azul para você — acrescentou. Largou o carretel e saiu correndo, com a borda do chapan verde arrastando na neve atrás de si.
— Hassan! — gritei eu. — Volte com ela!

Ele já estava dobrando a esquina, com as botas de borracha levantando neve do chão. Parou e se virou. Pôs as mãos em concha junto da boca.
—" Por você, faria isso mil vezes! "—disse ele. E deu aquele sorriso de Hassan, desaparecendo então na esquina. Só voltei a vêlo sorrir assim tão descontraído vinte e seis anos mais tarde, olhando uma foto Polaroid desbotada.
 (…) Por você, faria isso mil vezes! – me ouvi dizendo. Virei, então, e saí correndo. Tinha sido apenas um sorriso, e nada mais. As coisas não iam se ajeitar por causa disso. Aliás, nada ia se ajeitar por causa disso. Só um sorriso. Um sorriso minúsculo. Uma folhinha em um bosque, balançando com o movimento de um pássaro que alça vôo.
Mas me agarrei àquilo. Com os braços bem abertos. Porque, quando chega a primavera, a neve vai derretendo floco a floco, e talvez eu tivesse simplesmente testemunhado o primeiro floco que se derreteria.
Saí correndo. Um adulto correndo em meio a um enxame de crianças que gritavam. Mas nem me importei. Saí correndo, com o vento batendo no rosto e um sorriso tão grande quanto o vale do Panjsher nos lábios.
Saí correndo.”
Hosseini, K. In: O caçador de pipas