25 maio, 2012

Introspecção


Meu olhar se perde em direção ao nada,
Visito um mundo onde não conheço ao certo
Mergulho intimamente em busca de mim...
Encontro minha essência a muito abafada
Pergunto onde esteve todo esse tempo,
Ouço um sussurro: “Sempre estive aqui!”.
O que faço então com a angústia e o vazio que sinto no peito?
“Sinta-os e celebre com a solidão”.
Fico atônita, como posso eu querer celebrar com a solidão?
Se por temor a ela quase pereci,
Se por temor a solidão me esqueci de quem sou...
Num piscar de olhos retorno ao mundo externo,
Olho ao redor de mim
E o que vejo não me conforta.
O que vejo é falta de compaixão, exigências, egoísmo, inveja, ciúmes;
Vejo uma supervalorização de tudo que é superficial e descartável,
Como microchips implantados para roubar tudo o que realmente nos pertence,
Nossos sentimentos puros e livres, e a nossa própria humanidade.
Percebo que a solidão tem nome e me acompanha sem que eu solicite.
Ela está presente em tantos momentos...
Quando me decepciono, sofro, busco e não encontro;
Quando descubro algo novo, me emociono ou digo adeus;
Quando sinto tristeza, erro ou sinto alegria.
 Respiro fundo, penso que a solidão é fiel...
Fecho os olhos enfim e sorrio,
Dentro de mim algo novo brota
E está prestes a desabrochar densamente,
Como um broto de rosa em meio ao adubo,
Como um embrião imerso no útero da mãe em pleno desenvolvimento.

14 maio, 2012

A Canção que Faltava

Eu não sabia mais sonhar
Eu preferia só ficar, sozinha nessa estrada
Eu esquecia quem sou eu
Eu refletia como o breu, antes da sua chegada

Você me trouxe o porque
Me fez sorrir por merecer
Me deu seu horizonte e a ponte pra acessar
O brilho desse sol em mim e a coisa toda de ruim
Se foi.
Acordo antes de você só pra ver o teu sorriso
Quando abre os olhos e me vê,
Pronto, o dia já se iluminou
Razões pra ir em frente eu tenho aos milhões

E no café ao meio dia
Você prepara o que eu queria
Um beijo acompanhado de ontem
Do corpo que eu maltratei de tanto te querer bem.

Inacreditável, eu me sinto confortável ao lado seu
É que eu não sabia que a vida me traria o que jamais me deu.
Minha boca não consegue mais, desgrudar da tua pele
Da sua saliência, dos seus sais
De tudo que emana aqui
Quando o amor a gente faz e nunca é demais

Ah se eu pudesse descobrir de onde vem o seu poder
Onde mora o seu mistério, o seu remédio
Prescrito pra me absorver do mundo que ficou
Pra trás

Eu nunca fui amada assim
Perto de você me sinto "clean", me vejo enamorada
O teu carinho o teu cuidar, teu jeito de me reparar
Mesmo que eu esteja nada

Não importa o tempo que passou
Eu quero desfrutar do que ainda me resta, o que me espera?
Há tanto pra recuperar
Há tanto pra contar de nós.
Isabella Taviani



08 maio, 2012

O Escafandro e a Borboleta

“Foi assim que deparei com o farol numa das primeiras vezes em que empurravam minha cadeira de rodas, logo depois que saí das brumas do coma. [...] Imediatamente me pus sob a proteção desse símbolo fraterno que vela pelos marinheiros e pelos doentes, estes náufragos da solidão” (Jean Dominique Bauby).
Jean Dominique Bauby foi um homem rico e apaixonado pela vida. Em um passeio de carro, sofreu um acidente vascular cerebral (AVE), entrando em coma. Quando acordou se viu em um hospital paralisado da cabeça aos pés, restando-lhe apenas o movimento do olho esquerdo para comunicar-se com o mundo externo. Como consequência teve o que os médicos chamam de síndrome de “Locked-in” (síndrome no qual o indivíduo permanece consciente, porém não pode se mover ou se comunicar dada a paralisia que afeta todos os músculos voluntários). Essa síndrome é o que descrevem de “A coisa mais próxima de ser enterrado vivo”. Apesar disso, ele não perdeu suas capacidades cognitivas, tendo plena consciência de tudo ao seu redor, porém, imóvel, limita-se a enxergar apenas o campo de visão que seu olho alcança e permanecendo no hospital, seu mundo passou a se restringir a uma entediante e dependente espera.
          Inicialmente Bauby recusou aceitar o seu destino, fazendo a primeira reação típica que os psicanalistas chamam de ‘negação’. Aprendendo uma técnica de comunicação inventada pela sua Ortofonista, no qual letras do alfabeto são indicadas com o piscar do olho, formando frases, ele começa a se comunicar com o mundo.
          A luta pela vida através da arte é um ideal que torna ‘ O Escafandro e a Borboleta’ um filme essencialmente poético e profundo, e não um filme “dramalhão”, no qual muitos tiram conclusões precipitadas pelo conhecimento da fantástica história do protagonista, pois a intenção do autor não é fazer-nos chorar do início ao fim, mas tocar-nos e contagiar-nos com tamanha sensibilidade e primitiva poesia retratados nas imagens e pensamentos de Bauby, propondo que nos deparemos presos a um escafandro, sentindo-nos sufocados e impossibilitados, tal como ele, que com sua paralisia, percebeu que sua vida foi uma série de frustrações. Porém, ao decorrer do filme descobrimos algo valioso, no qual ele se agarrou para continuar em frente...
          Em minhas pesquisas sobre os mecanismos de defesa que norteiam a teoria psicanalítica, pude perceber que Bauby utiliza para manter-se vivo, um mecanismo de defesa por excelência, que é a sublimação, onde um desejo contido e sublimado gerou a sua vontade de escrever através da única forma que tinha para se expressar, levando-o a concretização de seu livro, esse era o desejo que o fez sentir a necessidade de continuar vivendo, o desejo de escrever e publicar o livro de sua vida. Atravessar a monotonia do processo lento e quase interminável de repetição das letras do alfabeto para a elaboração do livro foi uma maneira de superar sua condição, o que foi retratado com maestria no filme. Pois mesmo preso a um escafandro, seu Ego continuava lá, preso a realidade, porém mobilizando-se todo o tempo através do seu desejo, expresso pelo seu olho esquerdo. Bauby é uma larva enclausurada que depois de extremo esforço se transforma em borboleta, e através do olhar assustado de uma criança, com desejos e memórias afloradas, experimenta os seus sonhos, livres de repressões e de recalques que na verdade são impostos pelo ‘outro’, pois na imaginação não há limites, tudo se pode.

“Quanto ao prazer, apelo para a lembrança viva de sabores e odores, inesgotável reservatório de sensações. Não existia a arte de bem aproveitar os restos? Eu cultivo a de cozinhar lembranças em fogo lento”. (Jean Dominique Bauby)

01 maio, 2012

O Despertar


Quero poder abrir os olhos e sentir sem medo,
Viver o impossível, provar do improvável.
O medo é quem nos impede de sermos quem somos,
O medo nos distancia da verdade.
Quero ser o melhor para o mundo,
Sem deixar de ser o melhor para mim.
Quero sentir o poder da Criação em minhas entranhas
E pular no abismo,
Com a certeza de que tudo será mais intenso,
Tudo terá mais graça e sabor...
Quero sorrir para o tempo mesmo sabendo que ele é mais certo e preciso,
Quero gozar da vida quando descobrir que o futuro é incerto.
Quero não mais ser o que fui, mas contemplar o que sou...
E quando, novamente me deparar com a solidão,
Quero não mais entrar em desespero,
Mas apenas abrir a janela e libertar meu coração.