08 maio, 2012

O Escafandro e a Borboleta

“Foi assim que deparei com o farol numa das primeiras vezes em que empurravam minha cadeira de rodas, logo depois que saí das brumas do coma. [...] Imediatamente me pus sob a proteção desse símbolo fraterno que vela pelos marinheiros e pelos doentes, estes náufragos da solidão” (Jean Dominique Bauby).
Jean Dominique Bauby foi um homem rico e apaixonado pela vida. Em um passeio de carro, sofreu um acidente vascular cerebral (AVE), entrando em coma. Quando acordou se viu em um hospital paralisado da cabeça aos pés, restando-lhe apenas o movimento do olho esquerdo para comunicar-se com o mundo externo. Como consequência teve o que os médicos chamam de síndrome de “Locked-in” (síndrome no qual o indivíduo permanece consciente, porém não pode se mover ou se comunicar dada a paralisia que afeta todos os músculos voluntários). Essa síndrome é o que descrevem de “A coisa mais próxima de ser enterrado vivo”. Apesar disso, ele não perdeu suas capacidades cognitivas, tendo plena consciência de tudo ao seu redor, porém, imóvel, limita-se a enxergar apenas o campo de visão que seu olho alcança e permanecendo no hospital, seu mundo passou a se restringir a uma entediante e dependente espera.
          Inicialmente Bauby recusou aceitar o seu destino, fazendo a primeira reação típica que os psicanalistas chamam de ‘negação’. Aprendendo uma técnica de comunicação inventada pela sua Ortofonista, no qual letras do alfabeto são indicadas com o piscar do olho, formando frases, ele começa a se comunicar com o mundo.
          A luta pela vida através da arte é um ideal que torna ‘ O Escafandro e a Borboleta’ um filme essencialmente poético e profundo, e não um filme “dramalhão”, no qual muitos tiram conclusões precipitadas pelo conhecimento da fantástica história do protagonista, pois a intenção do autor não é fazer-nos chorar do início ao fim, mas tocar-nos e contagiar-nos com tamanha sensibilidade e primitiva poesia retratados nas imagens e pensamentos de Bauby, propondo que nos deparemos presos a um escafandro, sentindo-nos sufocados e impossibilitados, tal como ele, que com sua paralisia, percebeu que sua vida foi uma série de frustrações. Porém, ao decorrer do filme descobrimos algo valioso, no qual ele se agarrou para continuar em frente...
          Em minhas pesquisas sobre os mecanismos de defesa que norteiam a teoria psicanalítica, pude perceber que Bauby utiliza para manter-se vivo, um mecanismo de defesa por excelência, que é a sublimação, onde um desejo contido e sublimado gerou a sua vontade de escrever através da única forma que tinha para se expressar, levando-o a concretização de seu livro, esse era o desejo que o fez sentir a necessidade de continuar vivendo, o desejo de escrever e publicar o livro de sua vida. Atravessar a monotonia do processo lento e quase interminável de repetição das letras do alfabeto para a elaboração do livro foi uma maneira de superar sua condição, o que foi retratado com maestria no filme. Pois mesmo preso a um escafandro, seu Ego continuava lá, preso a realidade, porém mobilizando-se todo o tempo através do seu desejo, expresso pelo seu olho esquerdo. Bauby é uma larva enclausurada que depois de extremo esforço se transforma em borboleta, e através do olhar assustado de uma criança, com desejos e memórias afloradas, experimenta os seus sonhos, livres de repressões e de recalques que na verdade são impostos pelo ‘outro’, pois na imaginação não há limites, tudo se pode.

“Quanto ao prazer, apelo para a lembrança viva de sabores e odores, inesgotável reservatório de sensações. Não existia a arte de bem aproveitar os restos? Eu cultivo a de cozinhar lembranças em fogo lento”. (Jean Dominique Bauby)

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